Eu era criança quando assisti ao filme O Planeta dos Macacos – o mais “clássico”, de 1968 – junto com a minha mãe. Nunca tínhamos visto nada parecido. A cena final, tão surpreendente, nos deixou completamente atônitas diante da televisão. Toda aquela reflexão sobre a nossa sociedade, nossos instintos e a forma como tratamos os outros seres com superioridade me marcou muito. E aquele final… uau!

A experiência na minha infância foi tão forte que fiz questão de assistir ao filme de novo, recentemente, com meu filho de 9 anos. Ele gostou bastante da história, mas deu risada dos efeitos especiais, que obviamente achou meio antiquados e logo nos primeiros minutos já desvendou em alto e bom som aquilo que eu e minha mãe só descobrimos na tal “cena final super chocante”. Mais uma vez, posso dizer que fiquei atônita! O filme nem era tão bom assim quanto eu lembrava em minha memória infantil!

Sempre tive um carinho pela franquia a partir desse episódio com minha mãe. Vi todos os filmes clássicos (meu favorito é o Fuga do Planeta dos Macacos, de 1971) os reboots (adoro os dois!) e o remake de Tim Burton (que é meio fraco, mas tem o final bem mais parecido com o livro e está no Netflix, aliás). Apesar disso, nunca tinha lido o livro de 1963 que deu origem a tudo, do autor francês Pierre Boulle, relançado esse ano pela Editora Aleph.The Planet of the Apes, filme de 1968

Adorei ter contato com a história original. Ela é contada em primeira pessoa pelo jornalista/astronauta francês Ulysse Mérou (que nos filmes – claro – virou um americano), que participa de uma expedição espacial explorando novas galáxias e termina, junto de seus companheiros, num planeta que se assemelha muito com a Terra.

A grande diferença é que lá – no planeta chamado por eles de Soror – os humanos se comportam como um povo primitivo, enquanto os macacos – chimpanzés, gorilas e orangotangos – fazem parte de uma civilização organizada e culta.

Confesso que, talvez ironicamente, me senti muito mais próxima da chimpanzé Zira do que de Mérou. A arrogância sem fim do personagem “humano” do livro me impediu várias vezes de torcer por ele durante a leitura. Tive a mesma antipatia pelo Cornelius do livro, o noivo erudito de Kira, de quem eu era fã no filme clássico (e que foi “limado” da história na versão de Tim Burton).

The Planet of the Apes, remake de 2001

Apesar de me entristecer com passagens como a caçada violenta aos humanos que viviam livres na natureza e a descrição do zoológico de humanos, fiquei especialmente impactada com os momentos em que são relatadas as experiências científicas.

Não por serem humanos ali retratados, mas por imaginar o que os animais aqui mesmo de nosso planeta já sofreram – e infelizmente ainda sofrem – em nome dos “avanços científicos” e também por conta de outras finalidades ainda menos nobres, como testes de produtos estéticos ou simplesmente a nossa diversão e entretenimento. Como somos, assim como Ulysse, arrogantes!

Ainda mais triste imaginar que os relatos foram baseados em experiências reais realizadas com animais capturados na natureza ou mesmo criados em cativeiro. O humano que ali nos representa também fica indignado com as experiências, mas somente porque elas são realizadas com seus “semelhantes”.

Apesar da crítica explícita que permeia toda a obra, não há um posicionamento ou reflexão escancarada do personagem sobre isso, senti falta dessa identificação dele mesmo como opressor, diante da mudança de paradigma na qual ele se vê inserido.

Rise of the Planet of the Apes, de 2011

Vale dizer que mesmo na sociedade dos macacos há preconceito – chimpanzés, orangotangos e gorilas exercem funções diferentes, por exemplo, e as fêmeas – como Zira – sofrem também por serem minoria no meio intelectual.

Polêmicas a parte, a Aleph realmente caprichou no livro. Capa e projeto gráfico estão lindos. Os extras são muito interessantes – incluem introdução feita para a edição brasileira, entrevista com o autor, explorando, inclusive a opinião dele sobre as diferenças entre seu livro e o filme e um artigo contando um pouco de sua história de vida, entre outras coisas.

Vale lembrar que, como o livro estava esgotado há tempos, os preços que encontrávamos por aí não eram nada convidativos. Esse é, portanto, um ótimo momento para você levar pra casa esse clássico da ficção científica.

O Planeta dos Macacos 

Autor:  Pierre Boulle

Editora: Aleph

Tradutor: Andre Telles
Ano: 2015
Encadernação: brochura
Formato: 14 x 21 cm

Sérgio Nogueira

Professor esclarece dúvidas de português dos leitores com exemplos e dicas que facilitam o uso da língua. Mostra erros comuns e clichês que empobrecem o texto.

1ª) AFIM ou A FIM?

AFIM é um adjetivo referente à afinidade: “Sentimentos afins”;

A FIM é conectivo que indica finalidade (= para): “Estudava muito, a fim de ser aprovado (para ser aprovado)”.

 

2ª) DEBAIXO ou DE BAIXO?

Usamos DEBAIXO sempre que a seguir vier a preposição DE: “O gato estava debaixo da mesa”; “Escondeu-se debaixo da cama”…

Se não houver a preposição DE, usamos DE BAIXO: “O apartamento fica no andar de baixo”.

 

3ª) DEMAIS ou DE MAIS?

Só usamos DE MAIS quando se opõe a “de menos” na expressão “não tem nada de mais”.

Nos outros casos, quando pode significar “muito, bastante” ou “o restante”, devemos usar DEMAIS: “Comeu demais”; “Os demais devem retornar amanhã”.

 

4ª) Como ficou o uso do hífen com prefixo “PAN-“?

O novo acordo ortográfico manteve a regra anterior: só haverá hífen se a palavra seguinte começar por “h”, “m”, “n” ou “vogais”: pan-helênico, pan-mágico, pan-negritude, pan-americano, pan-europeu, pan-asiático…

Nos demais casos, devemos escrever sem hífen: pandemia, panregional…

 

5ª) Como ficou o uso do hífen antes de algarismos e nomes próprios?

Também não houve alteração, ou seja, o uso do hífen continua obrigatório em todos os casos: sub-20, anti-Obama, pós-Lula, pró-FHC…

 

6ª) É possível ESCANEAR?

Segundo o VOLP e as novas edições dos nossos principais dicionários, pode.

É uma forma aportuguesada como surfar, estressado, futebol, abajur, espaguete, estrogonofe…

 

7ª) Jogos paraolímpicos OU paralímpicos?

Nos dicionários, só há registro de PARAOLIMPÍADAS e de jogos paraolímpicos, mas recebi uma orientação da direção de esporte da Globo para usar JOGOS PARALÍMPICOS. Dizem que é uma padronização sugerida pelos Comitês Olímpicos. Vem do inglês paralimpics games.

Sou contra, mas obedeço.

 

8ª) ESTADA ou ESTADIA?

Segundo os novos dicionários, ESTADA e ESTADIA, agora, são sinônimos.

Antigamente, ESTADIA era o período em que um navio ficava no porto para carga e descarga e ESTADA nos demais casos. Devíamos dizer a ESTADA de um hóspede no hotel, por exemplo.

Agora não se faz mais a diferença, É aceitável falar em ESTADIA de hóspedes em hotéis, de automóveis e de ônibus em garagens, de aviões em hangares…

Quando se trata de pessoas, prefiro a forma ESTADA.

 

9ª) Por que AUTOESTRADA e ALTO-RELEVO?

Com o prefixo AUTO, só há hífen quando a palavra seguinte começa por “h” ou por “vogal igual”: auto-hipnose, auto-observação. Nos demais casos, sempre escrevemos “tudo junto”, ou seja, sem hífen: autanálise, autocontrole, automedicação, autoatendimento, autorretrato, autossustentável, autoescola, autoestrada…

As palavras compostas com o adjetivo ALTO (alto-relevo, altos-fornos, altas-horas, alta-sociedade) e com o advérbio ALTO (alto-falante) devem ser escritas sempre com hífen.

 

10ª) VIGINDO ou VIGENDO?

O verbo VIGER (= vigorar, valer) é regular da 2ª conjugação. Deve seguir o modelo: temendo, perdendo, vencendo… Assim sendo, “a lei ainda está VIGENDO”, isto é, ainda está VALENDO, ainda é VIGENTE, ainda está na sua VIGÊNCIA.

Se VALEU, VENCEU…, “a lei VIGEU por pouco tempo”.

Fonte: Globo