Podemos

Podemos sorrir ou chorar,
Andar por lugares desconhecidos.
Com novas pessoas
Ter outros amigos.

Podemos pular e cantar,
Achar outra confidente
Uma amiga diferente
Alguém, que nos faça mais contente.

Podemos dar muitas risadas
Achar a vida engraçada,
Ter alguém a nosso lado
Fazer novas trapalhadas.

Podemos ser até mais felizes,
Seguir nossa vida, deixando
O passado pra trás.

Mas em algum momento,
Nossas vidas vão se reencontrar.

E nesta hora amiga,
Espero que fique a certeza,
Que era isso,
O que devíamos ter feito,
Que não havia outro jeito.

Porque, podemos rir ou chorar,
Ter outros amigos.
Achar a vida engraçada,
Ser até mais feliz.

Mas será que é possível,
Encontrar outro amigo?
Que sorria comigo,
Que enxugue meu pranto
Que ria da vida,
E me faça feliz?

Será que existe outro amigo?
Se já tivemos o amigo,
Que a gente sempre quis?

Iara Gonçalves

Pedro mata a Morte

Subia Pedro a rua da Prudência, já cambaleante pelo excesso de aguardente.
Subia Pedro, garrafa cheia na mão e pensava.
– Por quê Ana foste embora, levando contigo João e Maria?
– Por quê abandonaste a casa, o ninho por nós construído?
Pedro, pobre Pedro embriagado, via tudo pelo prisma distorcido da companheira que há muito lhe ajudava, aguardente da boa era verdade, mas as idéias de Pedro há muito perturbava.
Então já cansado da vida que ele mesmo procurara, resolve Pedro anunciar a sentença mais sofrida que algum dia já sonhara.
– Morte, amiga Morte, porque a mim tu não levas, nada tenho neste mundo que ainda me anime a continuar por aqui.
Só que Pedro não sabia, que na rua da Fé, ali ao lado, andava a Morte a procurar algum desesperado. E escutando seu pedido ela então subitamente para Pedro aparece.
– Pedro, aqui estou eu, não costumo atender tão prontamente, mas estava eu tão perto que abri uma exceção.
Pedro então desnorteado, solta a garrafa de aguardente, pensando instantaneamente.
– Nunca mais bebo nesta vida.
– Quem é tu, figura estranha, toda de preto, carregando esta foice, achas que me assusta pelo adiantado da noite?
– Calma Pedro, diz a Morte, foste tu que me chamaste, de amiga me denominaste, vim atender teu pedido.
Pedro então desesperado, chega a conclusão que não quer morrer agora, afinal pode até ser que ainda encontre na vida algo que lhe dê prazer.
– Não D. Morte, não é bem assim, é força de expressão, são momentos de desespero que a aguardente dá vazão.
– Sinto muito amigo Pedro, mas depois que chego perto, só parto novamente carregando o ser vivente que a mim pediu ajuda.
– Não Sra., D. Morte, deve existir alguma coisa que a faça mudar de idéia, afinal este radicalismo nem da morte se aceita.
– Existe sim uma maneira, mas ninguém ainda conseguiu, para se livrar de mim, tem que pegar minha foice e dar cabo a minha vida, ou seria minha morte?
Pedro então encorajado, pelo muito de aguardente, que ainda pelo sangue lhe corria, entra nesta luta insana e tenta vencer a Morte, tirando dela sua vida, ou seria sua Morte?
E daquelas coisas inusitadas que só acontecem em ruas estranhas e em algumas madrugadas, Pedro vence a morte e vê no chão sua cabeça decepada.
A Morte muito estranha, afinal nem ela mesmo sabia se a morte morria, pega sua cabeça e sai em disparada.
Desce a rua da Prudência e encontra-se na esquina da Fé com a Solidariedade. Ali, um pouco refeita do susto que levara, coloca novamente a cabeça no lugar e só por aquela noite resolve ninguém levar.
Pedro, embasbacado, olha pra todo lado, e encontra sua garrafa em um canto jogada.
– Companheira, minha amiga, a ti sim, entrego a vida, só pode ter sido a força da aguardente que me transformou no valente que matou a Morte, se é que a Morte tem vida.
Mas ficou para Pedro um problema, muitos anos se passaram e agora o pobre Pedro, realmente quer dar cabo na vida.
Tenta ele vez em quando, subir a Prudência com a aguardente lhe acompanhando e para bem naquele ponto, onde teve o encontro que da Morte tirou a vida, e repete a sentença por ele proferida.
– Morte, amiga Morte, porque a mim tu não levas, já não agüento esta vida.
Mas a Morte agora esperta, não se aproxima de Pedro, porque a Morte também tem medo e não quer perder a vida, seja ela vida ou morte.
E agora fica assim, Pedro corre atrás da Morte para acabar com a vida.
E a Morte foge de Pedro, pra continuar sua vida ou quem sabe sua morte.

Iara Gonçalves


Você partiu,
De lembrança,
Alguns objetos
Espalhados pela casa

O disco do Pixinguinha
A bola de futebol
O copo de caipirinha,
Objetos somente

Que não me pertenciam
Não eram de meu uso,
Apenas com a incumbência
De lembrar tua presença

Para não permitir
Que eu esqueça
Que você já viveu por aqui
Já fez parte da minha vida

E foi embora somente
Num domingo
Abafado e quente
Sem nem te despedir

Mas de todos os objetos
O que mais me machuca
É o chinelo abandonado
No tapete lá no quarto

Tem a forma de teu pé
Para ti está preparado
Esperando tua volta
Como eu, desesperado

Ele me faz lembrar
O quanto estou sozinha
Ele espera
Uma parte do teu corpo
Eu preciso
De teu corpo inteirinho.

Iara Gonçalves

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Os Sonhos Que Só Sonhei

Os sonhos que sonhei
Talvez sejam os mais tristes
Porque às vezes volto a sonhá-los
Mesmo sabendo que não vou realizá-los

Os sonhos que sonhei
Talvez sejam os mais puros
Porque tive a coragem de sonhá-los

Os sonhos que sonhei
Talvez sejam os mais lindos
Eram sonhos acordados
Nas belas manhãs de domingo

Os sonhos que sonhei
Tive de esquecer
Não vou realizá-los
DEUS
Me ajude a compreender

Iara Gonçalves

O Jogo

Cinco meninos,
Em torno da bola
Uma partida
Só importa a vitória

Cinco meninos,
Olhos atentos
Muita esperança
Se foi o primeiro tempo

Cinco meninos,
Todos confiantes
É preciso vencer
Para poder ir adiante

Cinco meninos,
Um erro fatal
Levam um gol
O jogo chega ao final

Cinco meninos,
Na mais tenra idade
Sobrou a derrota
Não conheceram a felicidade

Cinco meninos,
Queriam vencer
A vida lhes pregou uma peça
Aprenderam a amadurecer

Iara Gonçalves

O Anjo

Minha vida estava vazia
Onde estava meu amigo
Onde havia se escondido
Quando eu o veria?

Estava meio perdida
Qual era o sentido da vida
Meu amigo tinha partido
Como é que eu ia viver

As coisas andavam estranhas
As piadas não tinham graça
As tristezas eram maiores
A minha dor, uma das piores

Eu vivia me perguntando
Porque Deus assim tinha agido
Com tanta gente no mundo
Foi levar logo, meu amigo

Será que ele não sabia
Que ele era meu consolo
Que igual nossa amizade
Nenhuma outra existiria

O tempo foi passando
A saudade ia crescendo
A dor sempre aumentando
A solidão me acompanhando

E foi num momento assim
De profunda dor e mágoa
Que Deus mostrou pra mim
O que eu não tinha entendido

Com os olhos rasos d’agua
Eu consegui perceber
Que o vulto que me acompanhava
Era o amigo tão querido,
Que eu jurara perder

Deus não o tinha levado
Apenas de asas, o tinha dotado
Ele agora era meu anjo
Isso eu deveria saber

Iara Gonçalves

Momentos Estranhos

Existem dias estranhos
Que me perco
Como folha ao vento
A procura de mim mesmo

Que não reconheço no espelho
Os olhos verdes
Que todos os dias me miram
Que não sei o que sou

E nem sei o que penso
Dias que fico a procura de algo
Mesmo sem saber o que
Dias que fico a procura de mim

Que sinto falta de um momento
Que ainda nem vivi
De uma pessoa
Que nem mesmo conheci

Sinto falta de uma voz
Que povoa minha mente
Que teme em falar o que sente
E nem sabe se deve sentir

Tem dias assim
Que ando a procura de tudo
Que desconheço quem sou
Que nem sei onde vou
Que fico a procura de mim. 

Estam por Aí

Andei ouvindo por aí
Que quando escutas meu nome
Teus olhos se enchem de agua

Pensei em te procurar
Tentar consertar as coisas
Mas restaram tantas mágoas

Decidi deixar assim
Não tem como recomeçar
Algo que já teve fim


Dei aquele sorriso cínico
Como quem diz
Agora ele sabe o que perdeu

Mas ao virar as costas
Correram lágrimas de meus olhos
Porque eu bem sei
Que quem mais perdeu
Fui EU. 

Cinco Minutos

Me dê cinco minutos
Veja bem não é nada
Cinco minutos somente
Cinco minutos a meu lado
É este tempo que quero
Pra tocar tua mão
Acariciar teus cabelos
Roçar meus lábios nos teus


Cinco minutos, só isso que peço
Cinco minutos a teu lado
Nada mais eu te peço
Cinco minutos somente

Será que nossa história
Não vale esse tempo
Cinco minutos
Contigo a meu lado

Cinco Minutos para paragens


Só quero um abraço
Um beijo bem dado
Teus olhos nos meus
Cinco minutos a teu lado

Nada mais eu te peço
Cinco minutos
Pra ti não é nada
Pra mim é lembrança
Pra sempre guardada

Meu Filho

Lembro com clareza o dia que você nasceu, peguei sua mãozinha e ela cabia todinha dentro da minha, sobrava espaço, poderia dizer que caberiam várias mãozinhas ali juntas. E por um bom tempo foi assim, tua mão em minha mão, sempre sobrando espaço, sempre seguro por mim, te acompanhei em cada passo.Você foi crescendo, aprendeu a caminhar, se deu assim, nossa primeira ruptura, você precisava por aí sozinho andar.Mas volta e meia ainda era assim, tua mão em minha mão, dependias de mim.Os anos continuaram passando, nossas mãos aos poucos foram se soltando. Posso até dizer que éramos mãe e filho meio diferentes, sempre avessos aquelas convenções que o mundo ensina pra gente.Nos permitimos alguns vai a mer…. de lado a lado, e até coisinhas mais pesadas, não era falta de respeito, acredito que era nosso jeito, na verdade sempre fomos muito amigos, e entre amigos até palavrões são permitidos.Mas ainda assim, volta e meia tudo voltava ao inicio, tua mão em minha mão, se estavas meio perdido ou não encontravas teu chão.Teve a primeira namorada, e eu que sempre pensei que de ciúmes seria tomada, achei aquilo tudo tão bonito e nem precisa te dizer, por ela também fiquei apaixonada.Mas mesmo assim, já não era somente minha mão em tua mão, e se deu assim mais uma ruptura, era hora de te dividir com alguém, não exisitia problema, nem triste isso era, porque na verdade só o que quero é alguém que te queira bem.Tivemos brigas é verdade, momentos em que tua mão em minha mão não ficaria, que nossas idéias em tudo discordavam, que não conseguíamos encontrar um meio termo, quando simplesmente não nos acertávamos.Mas ao lembrar delas agora, não me parecem ter uma grande proporção em nossa história, posso dizer que a maioria apaguei de minha memória, e as que por aqui ainda ficaram, só servem para lembrar que bons amigos, não precisam em tudo concordar.Sei que às vezes até tentávamos permanecer brabos por um bom tempo, mas se bem me lembro, nosso tempo não conseguia passar de um dia, e lá estávamos nós, tua mão em minha mão, minha mão em tua mão.E continuaste crescendo, enquanto aprendias a dirigir, não posso negar, tive medo, naquele momento, tua mão na minha mão de nada adiantaria, estavas tomando o rumo de tua vida e minha mão aos poucos soltaria.Enfim, és um homem meu filho, mas volta e meia lá vem os medos da vida que assombram a todos nós, e volta e meia, tua mão em minha mão o consolo ainda encontra.Mas hoje filho querido, o dia que aguardas a resposta tão esperada por ti, não tive eu a coragem que necessito para ficar aí contigo.Preferi sair assim, de fininho, meio escondido, e te deixar com teu pai, tão mais forte que eu nessas horas decisivas.Se der certo (e com certeza dará) ele contigo vai comemorar, e se…(isso não acontecerá) eu sei que melhor que eu ele vai te consolar.Porque eu filho querido,

Carta para meu filho

seja o resultado que for, antes de mais nada precisarei ser consolada.Porque sei que em breve estarás partindo e tua mão em minha mão, menos vezes ficará.Sei que as pessoas pensam que és muito dependente, que precisas de mim pra tudo, e que sou eu que incentivo isso, pra te ter sempre a meu lado, pra que fique sempre assim, tua mão em minha mão.Mas eu não concordo com isso, e o que as pessoas não entendem, e eu já desisiti de explicar, é que não parte o filho somente.Parte meu grande amigo, um grande companheiro, amigo de brincadeiras, de falar várias besteiras, de rir aquele riso solto,das brincadeiras de mau gosto. E como explicar isso, se ninguém entenderá, que nada vai me fazer mais falta, do que aqueles momentos que minha mão, tua mão não encontrará. Mas nada disso importa, eu sei que vais conseguir, terás muito sucesso e teu caminho vai seguir, e se em algum momento tu sozinho te sentir, é só chamar a mim, que em minha mão tua mão vou segurar.E o mais importante de tudo isso, onde eu acredito realmente ter acertado, é que há de chegar o dia, em que eu já muito velha, vou também precisar de ti, e será nesse momento que eu vou encontrar alento, pois eu tenho certeza que em tua mão, minha mão repousará.