Sobre Desmoronamentos e Áreas de Risco

São Francisco Xavier é um microcosmo onde todos os acontecimentos do resto do Brasil se repetem em escala.

Na entrada da minha rua havia um grupo de casinhas penduradas na margem do Rio do Peixe, ao lado da estrada para a cachoeira municipal e com um grande morro bem na frente. Morro esse onde eu moro do outro lado.

Esse grupo de casinhas era chamada de “favelinha”. Nem preciso explicar porque.

Pessoas compraram seus lotes na favelinha e construiram casas há dezenas de anos.

Com o tempo, o rio foi comendo a fundação das casas e o esgoto delas caía diretamente nele.

O morro em frente desabava e escorregava terra cobrindo a estrada e ameaçava soterrar as casinhas.

O único problema habitacional de São Francisco era a tal favelinha.

Muitos moradores não queriam morar mais lá com suas casas rachadas e o medo do soterramento.

Uma noite, numa chuva forte, o morro despencou e chegou a cobrir o orelhão em frente.

A defesa civil de São José dos Campos foi acionada e a sentença foi firme: eram casas impróprias para ocupação.

Alguns moradores foram ficar com parentes, outros queriam sair mas não tinham aonde ir e uns poucos não queria se mudar.

A prefeitura de SJC começou a providenciar a construção de um núcleo habitacional para essas pessoas. Porém, elas não queriam se mudar para longe do centro de SFX. Havia apenas um terreno no centro que comportava as novas casas e era do estacionamento da companhia de ônibus.

A prefeitura resolveu desapropriar o tal terreno e o dono, claro, brigou bastante.

Mais de ano demorou até o terreno passar para a prefeitura e enquanto isso os moradores da favelinha continuaram a viver com medo de um soterramento iminente ou da queda das casas no rio.

Quando se iniciou a construção das novas casas, bem no centro de SFX, nova queixa dos moradores: a prefeitura iria vender cada casa por 8 mil reais para serem pagas como eles pudessem. E muitos se recusavam a pagar pelas novas casas porque já tinham pago pelas casas na favelinha.

Teve um morador, dono do bar da favelinha que colocou como condição que a prefeitura construísse um novo bar no conjuntinho habitacional.

A construção foi rápida.

Conheci as casas novas e as ruas e achei bem legal. Casas de dois quartos, com sala, cozinha, quintal, garagem. Muito boas mesmo. Parecidas com uma casa que eu morei por 7 anos quando me mudei para cá.

Esse processo de mudança dos moradores da favelinha durou uns dois anos.

Agora, entendo que todos estão felizes em suas casas novas. A área da antiga favelinha foi reflorestada depois que tudo foi demolido.

O barzinho está lá, na entrada da rua nova e muita gente frequenta.

Assim, temos o exemplo de pessoas que moravam em áreas de risco e podemos concluir que uma parcela tinha consciência do risco e se mudaria para qualquer lugar que lhes fosse determinado. Outros, preferiam continuar na área de risco desde que fosse bem localizada ao centro da cidade e só aceitaram se mudar quando o terreno no centro foi desapropriado. E uma terceira parcela que não esperou ação nenhuma do governo e saiu de lá assim que pode por meios próprios.

E por que eles moravam em área de risco? Porque era mais barato e melhor localizado que um terreno na roça.