Cachorrinho

Eu estava indo para o trabalho e na frente da escola percebi no ponto de ônibus, sozinho, um cachorrinho preto minúsculo. Com certeza ele não deveria estar naquele lugar sozinho a não ser que tivesse sido abandonado.

Passei direto com o carro mas não consegui parar de pensar no bichinho durante a tarde toda.

Coisa semelhante aconteceu há 13 anos atrás, quando estava indo para uma reunião de trabalho em São José dos Campos e cruzei numa estrada de terra com um filhotinho preto também minúsculo quase no meio da estrada. Nem prestei atenção à reunião e estava decidida que na volta, ia resgatá-lo.

Foi assim que resgatei a Graça, sua mãe e sua irmãzinha.

Hoje não posso imaginar minha vida sem a Graça, a minha companheira mais fiel e amada.

Treze anos depois, senti a mesma coisa pelo filhote no ponto de ônibus.

Na volta do trabalho pensei: se ele ainda estiver lá, vou pegar.

E estava.

Parei o carro na escola, atravessei a rua e chamei o bichinho escondido atrás do banco.

Era uma femeazinha com uns 2 meses, eu acho.

Coloquei no colo e ela veio sentadinha prestando a maior atenção. Sem medo. Apenas curiosa e contente.

Passamos na loja de ração e comprei o vermífugo e potinhos pequenos para água e comida. Os potes dela.

Apresentar cachorro novo em casa pode ser traumático. Mas eu conheço meus bichos e confio neles que são todos gente boa e não iriam ferir de propósito um cachorrinho novo que eu trouxesse.

Os cachorros antigos da casa querem ter a certeza que minha atenção para eles e meu amor não vai diminuir. Se a gente continua se comportando igual com eles, eles não se importam de dividir um pouco o dono.

Além do mais, era mais um para entrar nas brincadeiras, para interagir.

A Graça, a mais velha, com 13 anos e dor nas costas continuou na rotina dela sem alterar nada. A mesma coisa com o Gigio. Eles estão seguros do lugar deles na casa, na hierarquia e no meu coração. Não vai ser uma cachorrinha pequenininha que vai afetar isso. Como são velhos, não querem brincar e não querem confusão. E a cachorrinha percebeu isso e os deixa em paz.

Joom La, a número 3 em idade, muito mais nova que os pastores, ficou com ciúmes. A cara dela ficou como quando o Pepê apareceu por aqui. Ficou um pouco afastada, rosna para a cachorrinha mas também não resistiu em brincar com ela no gramado. Para mostrar para a Joom La que ela não precisa ficar com ciúmes, agradei bastante e percebo que ela está fazendo a rotina dela de novo, sem se preocupar com a novata.

Pepê era o mais novo. Um meninão. Corajoso, inteligente, amoroso. Muito amoroso. Dá seus passeios pelos sítios vizinhos pulando o muro da garagem. Ele defende a casa, espanta intrusos. E foi criado meio solto, mãe velha tem dessas coisas, eu não tinha paciência para ficar em cima dele então, ele faz praticamente tudo que quer. Isso foi interessante porque ele aprendeu comportamentos com os outros cachorros e não tem medo, não tem traumas, é feliz e acabou ficando muito bem educado. Um cachorro de confiança mesmo. Ele que se interessou mais pela cachorrinha. Ele percebeu que o tempo dele de criança estava passando e que agora era ele que teria que educar a mais nova.

Liliana Jr recebeu esse nome porque eu queria poder dar carinho para a Liliana. Eu estava precisando bem de carinho e compensação por uma infância difícil. E me faz bem cuidar da Liliana, agradar a Liliana, proteger a Liliana, aconchegar a Liliana. Tudo que eu que eu queria que tivessem feito com essa Liliana aqui.

Ela, ao contrário da Joom La que acha que a alfa é a Graça, viu que a mamãe sou eu. E que sua vítima de brincadeiras é o Pepê.

Eu já tive outros filhotes em casa quando eu era mais nova mas por ignorância minha eles sofreram para se adaptar. Muito choro a noite, muita bronca, muito stress para todos.

Liliana Jr é o filhote mais feliz que já vi. Acho que não deu tempo para ela perceber que foi rejeitada e abandonada e logo em seguida foi recolhida por uma mãe carinhosa e num casa grande, com jardim e com irmãozinhos para brincar e nunca ficar sozinha.

Ela está sendo educada e aprende rápido. Já sabe o que é não. Às vezes, não quero ficar falando “não” e só rosno como os outros cachorros para avisá-la que é melhor parar.

Quanta energia!

Ela corre, corre, corre.

Ataca o Pepê se jogando de cima dos móveis.

Ataca minhas pernas e já rasgou meu pijama.

Brinca muito! Na falta de brinquedos para cachorrinhos, serve gravetos que ela leva orgulhosa.

Ela defende o biscoito canino dela com tanta seriedade que nem percebe que os outros são pelo menos 5 vezes maiores que ela. Daí ela chora e vem se esconder comigo. Eu pego no colo, acalmo e logo em seguida ela quer se atirar do colo porque precisa ir resolver algum assunto urgente.

A Zoe e o Tai, meus chow chows que já morreram, demoraram dias para soltar o primeiro latido. Liliana Jr late desde o primeiro dia pondo ordem na bagunça. Tão pequena e mandona. E os cachorros velhos e sábios olham para mim entendendo que agora é a vez dessa pequena descobrir como o mundo funciona.

Nesse momento, estou escrevendo esse texto, tomando meu café da manhã cercada pelas 3 fêmeas e o Gigio. Pepê está de guarda no jardim, dormindo.

Um calorzinho no meu pé direito e é a Liliana Jr dormindo profundamente encostada em mim. esperando qual vai ser a próxima brincadeira.