NA FLOR DA IDADE

“Nem todos podem estar na flor da idade, é claro! Mas cada um está na flor de sua idade.”

Esse comentário do saudoso poeta gaúcho Mário Quintana é mais atual do que nunca. Hoje em dia, vivemos numa sociedade que faz da aparência jovem o valor supremo. Parece que ficou feio envelhecer. E mais feio ainda declarar-se velho. A propaganda nos bombardeia a todo instante: seja jovem! mantenha-se jovem! vista roupas jovens!

A tirania da moda chega a fazer muitos pais usarem roupas juvenis, como se tivessem a idade de seus filhos. Tudo para tentar parecer jovem. Por que essa ânsia desesperada de querer ter a aparência de jovem? Por que esse medo da idade?

Mário Quintana nos lembra que cada idade tem sua beleza. E a sabedoria está em descobrir as diferentes formas de beleza que assumimos com o passar do tempo. E o bem mais precioso que devemos cultivar ao longo do tempo é a capacidade de olhar a vida com olhos sempre novos, de descobrir que, por mais que o tempo passe, sempre há tanta coisa para aprender, para descobrir. Manter-se jovem, na verdade, é conservar essa atitude de curiosidade diante da vida.

Hoje, os cientistas advertem que é preciso manter a mente ocupada. Deve-se ler, conversar, trocar idéias. Tudo isso ajuda a preservar nossa lucidez, mesmo na idade avançada. O cérebro também precisa de treino. Há quem se preocupe em malhar o corpo, horas a fio. Mas se esquece de malhar a mente, que vai atrofiando…

Na verdade, o ser humano sempre soube que era preciso treinar o cérebro. Tenho nas mãos um pequeno livro chamado “Saber envelhecer”, do escritor romano Cícero. Diz ele a certa altura: “Com a velhice, dirão, a memória declina. É o que acontece, com efeito, se não a cultivamos. Aliás, os velhos a conservam tanto melhor quanto permanecem intelectualmente ativos.” Isso escreveu Cícero, dois mil anos atrás! Realmente, não há nada de novo debaixo do sol.

Por isso, precisamos educar os jovens de modo que eles percebam que a passagem do tempo é inevitável, mas pode ser altamente gratificante se soubermos encará-la com sabedoria. É preciso incutir neles o sentido do tempo, para que aprendam a lidar bem com isso, sem temer o dia de amanhã. Somos seres temporais. E comparada à vida de alguns animais, a nossa existência é muito breve. Por isso, não podemos nos enganar.

Não devemos ter medo do tempo, pois é ele que nos ensina as coisas mais importantes da vida. É ele que nos permite perceber que a juventude é um estado de espírito, e não um estilo de roupa. O famoso pintor Pablo Picasso escreveu: “Leva-se muito tempo para ser jovem.” Ele, que morreu com 92 anos, sempre criativo e lúcido, sabia do que estava falando. Com o tempo, aprendemos a valorizar os momentos realmente preciosos da vida, sem nos perdermos em mesquinharias e bobagens, sem sermos arrastados pelas ilusões das aparências. E com isso nos mantemos jovens.

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