Nós não somos propriamente vizinhos.

A gente mora em cima do morro e eles lá do outro lado do rio, na baixada. Porém, entre nós apenas pastos.

Os pastores do vizinho acharam a nossa casa e começaram a comer a ração que ficava no pote da varanda, à noite.

Quem vinha era principalmente a pastora branca. Quem o Pepê perseguiu e espantou aqui de cima.

Fiquei fascinada com os pastores: a fêmea branca e dois machos pretos enormes. Tanto que fui indagar na cidade sobre eles.

Contaram que eram pastores do tal vizinho lá de baixo, do outro lado do rio e que eles eram muito maltratados. Passavam fome mesmo. Isso explicava o porque deles virem até aqui em cima a procura da ração da varanda.

Mas meus cachorros são pequenos e ótimos cães de guarda, enfrentando os bichos muito maiores que eles para defender o sítio. Assim, os pastores do vizinho vêm até a cerca do pasto ao lado e latem para os meus. Os meus respondem. E fica essa latição a madrugada toda impossibilitando meu sono.

Outra disputa é quem vai tocar as vacas do homem que aluga o pasto ao lado.

Pepê, Joom La e Liliana Jr adoram tocar vacas. É tipo o exercício diário deles. E os pastores adoram tocar vacas também. Daí, enquanto um grupo tocas as mesmas vacas para um lado, o outro grupo reclama latindo muito querendo tocar as vacas para o lado oposto.

Eu tenho p;ena dos pastores do vizinho porque são muito magros, maltratados e ficam pela cidade pedindo comida. Se eu pudesse, adoraria tê-los por aqui para tratá-los bem como merecem. Mas acho que isso não será possível. Estamos com a lotação esgotada de bichos.

Assim, pelo jeito, vão ficar os pastores do vizinho de um lado e os meus latindo de outro por tempo indefinido.

Boa noite!

Há muitos anos atrás, um livro fez muito sucesso.
A premissa dele era que todo mundo é incompetente.
Um sujeito começa a trabalhar numa firma e é muito bom no que faz. Então ele vai sendo promovido até um cargo no qual ele não é bom o suficiente. Ou seja, se torna incompetente para aquele cargo. E fatalmente estaciona nele, não sendo mais promovido.
Ultimamente tenho lembrado bem dessa idéia mas sendo aplicada na vida emocional.
Como a gente entra em roubadas emocionais sendo tão competente emocionalmente?
A resposta é simples.
A gente não conhece nosso limite de competência até ultrapassá-lo.
Então, determinadas situações e atitudes só vão se mostrar inadequadas para nós depois que a vivemos a primeira vez. Antes disso, a gente nem poderia imaginar o quão tal coisa nos faria mal sem antes experimentar.
Assim, eu entendo relacionamentos abusivos que começam como quem não quer nada, amizades que te sugam sem a gente se dar conta.
Mas eventualmente, a gente se toca e percebe nossa incompetência para lidar com a coisa/pessoa/situação.
E quando nos tocamos…. Opa!
Ou você aprende a lidar com o negócio, ou está fadado a ficar paralisado nessa situação. Como o cara da firma que chegou numa posição e se mantém incompetente para ela.
Eu estou falando de competência emocional para lidar com fatos e pessoas.
Tem gente que prefere ficar incompetente. Esses deveriam se restringir às situações
que dominam para se ferir menos e causar menos estragos por onde andam.
E, felizmente, tem aqueles que se superam.
Percebem e reconhecem a incompetência e trabalham ativamente para melhorar e não ser mais incompetentes. Eu admiro essas pessoas e desprezo aqueles que não querem melhorar.
E você? Já chegou no seu grau de incompetência?

Quando eu era criança eu adorava os contos de fadas com as princesas lindas, os príncipes garbosos e a indefectível bruxa que era a parte ruim da história e que fazia o impossível, com magia, para afastar a felicidade da princesa.

Toda menina queria ser uma princesa. Toda.

Até eu.

Por anos os meus sonhos foram moldados para ser a princesa da vida real. Achar o príncipe era fundamental.

Eu estava mais para Gata Borralheira porque meus pais não eram aqueles rei e rainha carinhosos e protetores.

Mas os sonhos de princesa estavam lá.

Eu tive meu dia de princesa vestida num longo branco, tiara e véu. O ápice do sonho da princesa e o final do conto de fadas porque daí eram felizes para sempre, sempre.

Eu juro que eu tentei ser a princesa, embora sonhos nada de contos de fadas enchiam minha cabeça. E eu ia atrás dos sonhos e tentava ser princesa.

Claro que não deu certo.

Uma coisa excluía a outra.

Hoje eu me assumo como A Bruxa.

Não aquela bruxa que faz bruxarias e maldades.

Eu sou a Bruxa do Maleus Maleficarum.

Aquela mulher que vive sozinha na floresta, cercada de natureza e bichos, curando os outros.

Aquela que não se encaixa nos padrões da sociedade da vilazinha local.

Aquela que as pessoas procuram apenas quando têm problemas que só uma bruxa curandeira pode resolver mas que depois é esquecida até o próximo problema.

Uma bruxa tipo Geni do Zepelin.

Bruxa Geni.

Hoje eu dormi muito bem como há muito tempo. E tive um sonho muito interessante que resumia minha vida. E no sonho, me comportei exatamente como fiz no decorrer dos anos: lutei, fui atrás dos meus sonhos verdadeiros (e não sonhos que me impunham) e acabei a Bruxa, sozinha incompreendida na floresta da vila.

Essa é a vida de bruxa.

Bruxa de verdade.

Não vou acabar esse texto com um clichê tipo “quem nasceu para bruxa, não chega a princesa”.

Vou dizer que eu tenho orgulho de ser Bruxa. Que se eu tivesse me assumido mais jovem teria sido feliz mais rápido.

Que a liberdade que eu tenho como bruxa me faz voar mais alto que com uma vassoura.

Que eu estou feliz. Estou em paz.

E estou exercendo minha totalidade.

Eu sou a Bruxa que as princesas queriam ser.

Quando estou em São Miguel do Gostoso, eu gosto de tomar café da manhã vendo o mar.
Eu procuro a mesa e a cadeira onde a visão é melhor, mesmo que seja por uma nesguinha no muro.
A moça do restaurante, a da limpeza, a da recepção, todas sabem que eu quero achar o mar pela manhã e riem.
Dependendo do sol eu mudo de mesa, ajeito a cadeira, troco xícaras e talheres e mudo o adoçante.
E isso, todo dia.
Todo dia a procura da melhor visão do mar.
Hoje havia barquinhos também e eu fiquei tão feliz!
Feliz a ponto de escrever pra vocês.
E não deu para não pensar na vida.
E não é que a vida é uma eterna busca pela melhor paisagem?
Tem coisas que eu não queria ter visto, como a morte de minha querida companheira Graça e que me faz chorar até hoje.
Mas essas coisas que a gente não quer aparecem do mesmo jeito. E apesar delas, eu ainda busco o melhor cantinho pra ver o sol, o mar e os barquinhos. E ser feliz.
Todos os dias.

Podemos

Podemos sorrir ou chorar,
Andar por lugares desconhecidos.
Com novas pessoas
Ter outros amigos.

Podemos pular e cantar,
Achar outra confidente
Uma amiga diferente
Alguém, que nos faça mais contente.

Podemos dar muitas risadas
Achar a vida engraçada,
Ter alguém a nosso lado
Fazer novas trapalhadas.

Podemos ser até mais felizes,
Seguir nossa vida, deixando
O passado pra trás.

Mas em algum momento,
Nossas vidas vão se reencontrar.

E nesta hora amiga,
Espero que fique a certeza,
Que era isso,
O que devíamos ter feito,
Que não havia outro jeito.

Porque, podemos rir ou chorar,
Ter outros amigos.
Achar a vida engraçada,
Ser até mais feliz.

Mas será que é possível,
Encontrar outro amigo?
Que sorria comigo,
Que enxugue meu pranto
Que ria da vida,
E me faça feliz?

Será que existe outro amigo?
Se já tivemos o amigo,
Que a gente sempre quis?

Iara Gonçalves

Pedro mata a Morte

Subia Pedro a rua da Prudência, já cambaleante pelo excesso de aguardente.
Subia Pedro, garrafa cheia na mão e pensava.
– Por quê Ana foste embora, levando contigo João e Maria?
– Por quê abandonaste a casa, o ninho por nós construído?
Pedro, pobre Pedro embriagado, via tudo pelo prisma distorcido da companheira que há muito lhe ajudava, aguardente da boa era verdade, mas as idéias de Pedro há muito perturbava.
Então já cansado da vida que ele mesmo procurara, resolve Pedro anunciar a sentença mais sofrida que algum dia já sonhara.
– Morte, amiga Morte, porque a mim tu não levas, nada tenho neste mundo que ainda me anime a continuar por aqui.
Só que Pedro não sabia, que na rua da Fé, ali ao lado, andava a Morte a procurar algum desesperado. E escutando seu pedido ela então subitamente para Pedro aparece.
– Pedro, aqui estou eu, não costumo atender tão prontamente, mas estava eu tão perto que abri uma exceção.
Pedro então desnorteado, solta a garrafa de aguardente, pensando instantaneamente.
– Nunca mais bebo nesta vida.
– Quem é tu, figura estranha, toda de preto, carregando esta foice, achas que me assusta pelo adiantado da noite?
– Calma Pedro, diz a Morte, foste tu que me chamaste, de amiga me denominaste, vim atender teu pedido.
Pedro então desesperado, chega a conclusão que não quer morrer agora, afinal pode até ser que ainda encontre na vida algo que lhe dê prazer.
– Não D. Morte, não é bem assim, é força de expressão, são momentos de desespero que a aguardente dá vazão.
– Sinto muito amigo Pedro, mas depois que chego perto, só parto novamente carregando o ser vivente que a mim pediu ajuda.
– Não Sra., D. Morte, deve existir alguma coisa que a faça mudar de idéia, afinal este radicalismo nem da morte se aceita.
– Existe sim uma maneira, mas ninguém ainda conseguiu, para se livrar de mim, tem que pegar minha foice e dar cabo a minha vida, ou seria minha morte?
Pedro então encorajado, pelo muito de aguardente, que ainda pelo sangue lhe corria, entra nesta luta insana e tenta vencer a Morte, tirando dela sua vida, ou seria sua Morte?
E daquelas coisas inusitadas que só acontecem em ruas estranhas e em algumas madrugadas, Pedro vence a morte e vê no chão sua cabeça decepada.
A Morte muito estranha, afinal nem ela mesmo sabia se a morte morria, pega sua cabeça e sai em disparada.
Desce a rua da Prudência e encontra-se na esquina da Fé com a Solidariedade. Ali, um pouco refeita do susto que levara, coloca novamente a cabeça no lugar e só por aquela noite resolve ninguém levar.
Pedro, embasbacado, olha pra todo lado, e encontra sua garrafa em um canto jogada.
– Companheira, minha amiga, a ti sim, entrego a vida, só pode ter sido a força da aguardente que me transformou no valente que matou a Morte, se é que a Morte tem vida.
Mas ficou para Pedro um problema, muitos anos se passaram e agora o pobre Pedro, realmente quer dar cabo na vida.
Tenta ele vez em quando, subir a Prudência com a aguardente lhe acompanhando e para bem naquele ponto, onde teve o encontro que da Morte tirou a vida, e repete a sentença por ele proferida.
– Morte, amiga Morte, porque a mim tu não levas, já não agüento esta vida.
Mas a Morte agora esperta, não se aproxima de Pedro, porque a Morte também tem medo e não quer perder a vida, seja ela vida ou morte.
E agora fica assim, Pedro corre atrás da Morte para acabar com a vida.
E a Morte foge de Pedro, pra continuar sua vida ou quem sabe sua morte.

Iara Gonçalves


Você partiu,
De lembrança,
Alguns objetos
Espalhados pela casa

O disco do Pixinguinha
A bola de futebol
O copo de caipirinha,
Objetos somente

Que não me pertenciam
Não eram de meu uso,
Apenas com a incumbência
De lembrar tua presença

Para não permitir
Que eu esqueça
Que você já viveu por aqui
Já fez parte da minha vida

E foi embora somente
Num domingo
Abafado e quente
Sem nem te despedir

Mas de todos os objetos
O que mais me machuca
É o chinelo abandonado
No tapete lá no quarto

Tem a forma de teu pé
Para ti está preparado
Esperando tua volta
Como eu, desesperado

Ele me faz lembrar
O quanto estou sozinha
Ele espera
Uma parte do teu corpo
Eu preciso
De teu corpo inteirinho.

Iara Gonçalves

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Os Sonhos Que Só Sonhei

Os sonhos que sonhei
Talvez sejam os mais tristes
Porque às vezes volto a sonhá-los
Mesmo sabendo que não vou realizá-los

Os sonhos que sonhei
Talvez sejam os mais puros
Porque tive a coragem de sonhá-los

Os sonhos que sonhei
Talvez sejam os mais lindos
Eram sonhos acordados
Nas belas manhãs de domingo

Os sonhos que sonhei
Tive de esquecer
Não vou realizá-los
DEUS
Me ajude a compreender

Iara Gonçalves

O Jogo

Cinco meninos,
Em torno da bola
Uma partida
Só importa a vitória

Cinco meninos,
Olhos atentos
Muita esperança
Se foi o primeiro tempo

Cinco meninos,
Todos confiantes
É preciso vencer
Para poder ir adiante

Cinco meninos,
Um erro fatal
Levam um gol
O jogo chega ao final

Cinco meninos,
Na mais tenra idade
Sobrou a derrota
Não conheceram a felicidade

Cinco meninos,
Queriam vencer
A vida lhes pregou uma peça
Aprenderam a amadurecer

Iara Gonçalves

O Anjo

Minha vida estava vazia
Onde estava meu amigo
Onde havia se escondido
Quando eu o veria?

Estava meio perdida
Qual era o sentido da vida
Meu amigo tinha partido
Como é que eu ia viver

As coisas andavam estranhas
As piadas não tinham graça
As tristezas eram maiores
A minha dor, uma das piores

Eu vivia me perguntando
Porque Deus assim tinha agido
Com tanta gente no mundo
Foi levar logo, meu amigo

Será que ele não sabia
Que ele era meu consolo
Que igual nossa amizade
Nenhuma outra existiria

O tempo foi passando
A saudade ia crescendo
A dor sempre aumentando
A solidão me acompanhando

E foi num momento assim
De profunda dor e mágoa
Que Deus mostrou pra mim
O que eu não tinha entendido

Com os olhos rasos d’agua
Eu consegui perceber
Que o vulto que me acompanhava
Era o amigo tão querido,
Que eu jurara perder

Deus não o tinha levado
Apenas de asas, o tinha dotado
Ele agora era meu anjo
Isso eu deveria saber

Iara Gonçalves